Introdução
A ovinocultura faz parte da história do Brasil, Uruguai e Paraguai há mais de quatro séculos. Nesta seção, reunimos artigos que retratam a origem, a evolução e os principais acontecimentos que moldaram a cadeia ovina no Mercosul, desde a chegada dos primeiros rebanhos até os desafios da produção moderna.
Acesse os artigos disponíveis abaixo e conheça a história da ovinocultura em cada país do Mercosul.
Durante mais de cinco séculos, os ovinos acompanharam a formação do território brasileiro, contribuindo para a alimentação, o vestuário, a ocupação do interior e, mais recentemente, para o desenvolvimento de uma cadeia produtiva cada vez mais profissionalizada. A história da ovinocultura brasileira se confunde com a própria história do país e ajuda a explicar por que a atividade continua desempenhando um papel importante na economia e na cultura de diversas regiões.
Os primeiros registros documentados da presença de ovinos no Brasil remontam ao ano de 1556, quando animais trazidos pelos colonizadores portugueses desembarcaram no território brasileiro. Originários da Península Ibérica, esses ovinos eram pequenos, rústicos e adaptados às condições climáticas mediterrâneas. (Embrapa)
Assim como bovinos, equinos e caprinos, as ovelhas desempenharam papel fundamental na consolidação das primeiras povoações. Além de fornecer carne e lã, adaptavam-se facilmente aos sistemas extensivos da época, exigindo poucos recursos e apresentando boa resistência às adversidades ambientais. (Ainfo Embrapa)
Ao longo dos séculos, os rebanhos espalharam-se por praticamente todo o território nacional. Durante esse período, a seleção natural teve papel decisivo na formação dos chamados ovinos naturalizados brasileiros.
Sem programas estruturados de melhoramento genético, os animais foram se adaptando às diferentes condições climáticas do país, desenvolvendo características como rusticidade, resistência a parasitas, tolerância ao calor, capacidade reprodutiva e eficiência na utilização de forragens de baixa qualidade. Esse processo originou importantes grupos genéticos adaptados às diferentes regiões brasileiras. (Embrapa)
Embora presentes em várias partes do Brasil, foi no Sul que a ovinocultura encontrou condições ideais para seu desenvolvimento econômico.
A partir do século XVIII, com a ocupação dos campos naturais do Rio Grande do Sul, grandes rebanhos passaram a ser criados em sistemas extensivos. A produção de lã tornou-se o principal objetivo da atividade, impulsionada pela crescente demanda da indústria têxtil nacional e internacional.
Durante boa parte do século XX, o Brasil figurou entre os principais produtores de lã da América do Sul, e a ovinocultura tornou-se uma das atividades mais importantes da pecuária gaúcha.
Nas décadas de 1980 e 1990, a expansão das fibras sintéticas e as mudanças no mercado internacional provocaram uma forte queda nos preços da lã.
Como consequência, milhares de produtores reduziram seus rebanhos ou abandonaram completamente a atividade. Diversas propriedades passaram a priorizar a bovinocultura de corte ou outras alternativas econômicas.
Apesar das dificuldades, esse período marcou o início de uma profunda transformação da ovinocultura brasileira.
Enquanto a lã perdia espaço, aumentava o interesse pela produção de carne ovina.
O crescimento da renda da população, a valorização da gastronomia e a expansão dos restaurantes especializados estimularam uma demanda crescente por cordeiros jovens, carcaças padronizadas e produtos de maior qualidade.
Novas raças especializadas para produção de carne, como Dorper, Texel, Ile de France, Hampshire Down e Suffolk, passaram a integrar programas de cruzamento com animais adaptados às diferentes regiões brasileiras.
Ao mesmo tempo, tecnologias de manejo, nutrição, reprodução e melhoramento genético começaram a elevar significativamente os índices produtivos.
Atualmente, a ovinocultura brasileira apresenta características bastante distintas entre as regiões.
No Sul, predominam sistemas voltados para carne, ainda coexistindo com parte da produção de lã.
No Nordeste, concentra-se o maior efetivo de ovinos do país, formado principalmente por animais deslanados adaptados às condições do Semiárido, desempenhando importante função econômica e social para milhares de pequenos produtores.
Já as regiões Sudeste, Centro-Oeste e Norte vêm registrando crescimento gradual da atividade, impulsionado pela proximidade dos grandes centros consumidores, pela intensificação dos sistemas produtivos e pelo avanço das tecnologias de produção.
Apesar da evolução observada nas últimas décadas, a cadeia ovina brasileira ainda enfrenta importantes desafios.
Entre eles destacam-se a baixa oferta de cordeiros padronizados ao longo do ano, a necessidade de maior organização entre produtores e frigoríficos, a profissionalização da gestão das propriedades, o fortalecimento da assistência técnica e o aumento do consumo interno.
Ao mesmo tempo, novas oportunidades surgem com a valorização da carne ovina de qualidade, o crescimento da produção de leite ovino, a agregação de valor por meio de produtos artesanais e a integração comercial entre os países do Mercosul.
A ovinocultura brasileira vive um momento de renovação.
Cada vez mais baseada em informação, tecnologia e gestão, a atividade deixa para trás o modelo exclusivamente tradicional e consolida-se como uma cadeia produtiva moderna, conectada às demandas do consumidor e às oportunidades do mercado.
Com uma das maiores extensões territoriais do mundo, diversidade climática e enorme disponibilidade de recursos naturais, o Brasil reúne condições para ampliar sua produção e fortalecer sua posição no cenário da ovinocultura sul-americana.
Conhecer essa trajetória é compreender que o futuro da atividade depende não apenas da tradição, mas também da capacidade de inovar, produzir conhecimento e construir uma cadeia cada vez mais integrada.
Embrapa – Produção de ovinos de corte em sistemas integrados. (Embrapa)
Santos, R. A. A Cabra e a Ovelha no Brasil. Brasília: Embrapa Informação Tecnológica, 2003. (Ainfo Embrapa)
Mariante, A. S.; Egito, A. A. Recursos Genéticos Animais do Brasil. Embrapa. (Embrapa)
Esse artigo foi estruturado para funcionar como um conteúdo pilar do Cordeiros do Mercosul, servindo de base para futuros artigos sobre a história da lã, as raças ovinas brasileiras, a evolução da carne ovina e a integração da ovinocultura no Mercosul.
Poucos países no mundo possuem uma relação tão estreita com a ovinocultura quanto o Uruguai. Ao longo de mais de quatro séculos, a criação de ovinos tornou-se parte da identidade nacional, impulsionando o desenvolvimento econômico, ocupando os campos naturais do país e consolidando uma cadeia produtiva reconhecida internacionalmente pela qualidade da lã e da carne ovina.
Atualmente, embora o rebanho uruguaio seja menor do que em seu auge, o país permanece como uma das maiores referências mundiais em produção ovina baseada em eficiência, melhoramento genético, bem-estar animal e exportação.
Os primeiros ovinos chegaram ao território da então Banda Oriental durante o período colonial. Embora existam divergências entre historiadores, uma das versões mais aceitas indica que as primeiras ovelhas foram introduzidas por colonizadores portugueses por volta de 1608, durante a fundação da Nova Colônia do Sacramento. Eram animais do tipo Churra, de pequena produção de lã, que deram origem à chamada ovelha Crioula uruguaia. (sul.org.uy)
Desde então, os ovinos passaram a ocupar os extensos campos naturais do atual território uruguaio, adaptando-se rapidamente às condições locais.
Durante boa parte dos séculos XVII e XVIII, a criação de ovinos possuía caráter secundário, voltada principalmente ao abastecimento das propriedades rurais com carne, couro e lã.
A transformação ocorreu no século XIX.
Com a independência do Uruguai e o crescimento da demanda internacional por lã, produtores passaram a investir na introdução de raças europeias de maior produtividade. A partir da década de 1830 chegaram animais Merino, Rambouillet, Lincoln e, posteriormente, Romney Marsh, iniciando um amplo processo de melhoramento genético do rebanho nacional. (sul.org.uy)
A segunda metade do século XIX marcou o grande salto da ovinocultura uruguaia.
Em 1860, o país possuía aproximadamente 2,6 milhões de ovinos. Apenas doze anos depois, esse número havia ultrapassado 20 milhões de cabeças, crescimento impulsionado principalmente pela elevada demanda internacional por lã durante a Guerra Civil Americana (1861–1865), que reduziu a oferta mundial de algodão e valorizou as fibras naturais. (sul.org.uy)
Nas décadas seguintes, a lã tornou-se um dos principais produtos de exportação do Uruguai e uma das maiores fontes de divisas do país.
A produção ovina impulsionou o desenvolvimento da indústria têxtil, das casas exportadoras, dos frigoríficos e das comunidades rurais, consolidando-se como um dos pilares da economia uruguaia. (sul.org.uy)
O desenvolvimento da ovinocultura uruguaia esteve diretamente ligado ao melhoramento genético.
Ao longo dos séculos XIX e XX, diferentes ciclos produtivos favoreceram distintas raças conforme as exigências do mercado internacional.
Inicialmente predominou a ovelha Crioula, seguida pelo intenso processo de "merinização". Posteriormente, ganharam espaço raças como Lincoln, Romney Marsh, Corriedale, Ideal (Polwarth) e outras de dupla aptidão.
Nas últimas décadas, passaram a integrar os sistemas produtivos raças especializadas para produção de carne, como Texel, Hampshire Down, Southdown, Suffolk, Poll Dorset e Dorper, além de genótipos voltados para maior prolificidade e produção leiteira. (sul.org.uy)
Assim como ocorreu em outros países produtores, a ovinocultura uruguaia enfrentou importantes mudanças a partir da década de 1990.
A queda dos preços internacionais da lã, provocada pela expansão das fibras sintéticas e pelas transformações da indústria têxtil mundial, reduziu significativamente a rentabilidade da atividade.
O efetivo ovino nacional diminuiu ao longo das décadas seguintes.
Em resposta, produtores e instituições passaram a direcionar esforços para aumentar a participação da carne ovina na receita das propriedades, investindo em genética, manejo, qualidade de carcaça e abertura de mercados internacionais. (INIA)
Grande parte da competitividade da ovinocultura uruguaia está associada à forte integração entre produtores, pesquisa e extensão rural.
Instituições como o Instituto Nacional de Investigación Agropecuaria (INIA) e o Secretariado Uruguayo de la Lana (SUL) desempenham papel central na geração de tecnologias voltadas ao melhoramento genético, manejo, nutrição, bem-estar animal, sanidade e sustentabilidade dos sistemas de produção. (sul.org.uy)
Programas nacionais também impulsionaram avanços em rastreabilidade, avaliação genética, produção de lanas finas e superfinas e sistemas de produção ética reconhecidos internacionalmente. (INIA)
Embora possua uma população inferior a quatro milhões de habitantes, o Uruguai continua sendo um dos países mais especializados em produção ovina.
Sua cadeia produtiva caracteriza-se pela elevada profissionalização, uso intensivo de tecnologia, forte organização institucional e clara orientação para os mercados internacionais.
Além da tradicional produção de lã fina, o país consolidou-se como exportador de carne ovina de alta qualidade, atendendo mercados exigentes da América, Europa, Oriente Médio e Ásia. (sul.org.uy)
A história da ovinocultura uruguaia demonstra como uma atividade agropecuária pode moldar a economia, a cultura e a identidade de um país.
Ao longo de mais de quatrocentos anos, o Uruguai transformou um rebanho introduzido durante o período colonial em uma das cadeias ovinas mais eficientes e respeitadas do mundo.
Hoje, a tradição construída por gerações de produtores continua evoluindo, sustentada pela ciência, pelo melhoramento genético e pela busca permanente por qualidade, produtividade e competitividade.
Secretariado Uruguayo de la Lana (SUL). La producción ovina en Uruguay e Razas ovinas en el Uruguay. (sul.org.uy)
Instituto Nacional de Investigación Agropecuaria (INIA). Publicações sobre sistemas de produção ovina, bem-estar animal e história do setor. (INIA)
INIA & SUL. Proyecto Merino Fino del Uruguay: una visión con perspectiva histórica. (Ainfo INIA)
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Evolução Histórica da Ovinocultura do Rio Grande do Sul e Uruguai. (lume.ufrgs.br)
Embora seja mais conhecido internacionalmente pela bovinocultura, o Paraguai vem consolidando, nas últimas décadas, uma ovinocultura moderna, baseada em melhoramento genético, organização dos produtores e abertura de novos mercados. A criação de ovinos acompanha a história do país desde o período colonial, mas foi a partir do século XX que a atividade passou a se estruturar como uma cadeia produtiva organizada.
Hoje, a ovinocultura paraguaia vive um momento de expansão, impulsionada pela produção de carne, pelo comércio de genética e pelo fortalecimento de instituições dedicadas ao desenvolvimento do setor.
Os ovinos chegaram ao atual território paraguaio durante a colonização espanhola, no século XVI. Assim como bovinos, equinos e caprinos, foram introduzidos pelas primeiras expedições colonizadoras para abastecer os assentamentos com carne, couro e lã.
Durante muitos anos, a criação permaneceu em pequena escala, voltada principalmente ao consumo das propriedades rurais e das comunidades locais. A bovinocultura, favorecida pelas extensas áreas de pastagens naturais, consolidou-se como a principal atividade pecuária do país, enquanto a ovinocultura permaneceu como atividade complementar. (Biblioteca Digital ODEPA)
Um dos marcos da história da ovinocultura paraguaia ocorreu em 11 de outubro de 1980, com a fundação da Asociación Paraguaya de Criadores de Ovinos (APCO).
Criada por um grupo de produtores pioneiros, a entidade passou a liderar programas de melhoramento genético, registro genealógico, capacitação técnica e promoção da atividade em todo o país. A APCO também fortaleceu a integração entre criadores, a Associação Rural do Paraguai (ARP) e os órgãos públicos ligados à sanidade e ao desenvolvimento agropecuário. (APCO)
Nas décadas seguintes, a ovinocultura paraguaia iniciou um processo acelerado de profissionalização.
Com apoio técnico da APCO, produtores passaram a importar reprodutores e matrizes de alto valor genético, principalmente do Uruguai, Brasil e Argentina. Raças como Hampshire Down, Texel, Dorper, Santa Inês, Suffolk e Poll Dorset ganharam espaço, ampliando a produtividade e a qualidade dos rebanhos destinados à produção de carne. (APCO)
Além da seleção genética, a adoção de melhores práticas de manejo, nutrição e sanidade elevou o padrão técnico da atividade.
Diferentemente do Uruguai, cuja história está fortemente ligada à produção de lã, a ovinocultura paraguaia concentrou seus esforços principalmente na produção de carne e de reprodutores.
O crescimento do consumo interno, aliado ao aumento da demanda por genética especializada, estimulou investimentos em cabanhas, centros de melhoramento e exposições nacionais.
As feiras promovidas pela APCO e pela Associação Rural do Paraguai tornaram-se importantes vitrines para a comercialização de animais de elite e para a difusão de tecnologias de produção. (Associação Rural del Paraguay)
Nos últimos anos, o Paraguai passou a ampliar sua participação no comércio internacional de produtos ovinos.
Em 2023, o país realizou a primeira exportação de ovinos vivos das raças Dorper e Santa Inês para o Uruguai, um marco para a genética nacional. (Associação Rural del Paraguay)
Em 2026, outro importante avanço foi alcançado com a primeira exportação oficial de carne ovina para os Emirados Árabes Unidos, resultado do trabalho conjunto entre produtores, frigoríficos e o Servicio Nacional de Calidad y Salud Animal (SENACSA). (SENACSA)
O crescimento da ovinocultura paraguaia está diretamente ligado à atuação das instituições do setor.
Além da APCO, destacam-se a Associação Rural do Paraguai (ARP) e o SENACSA, responsáveis por ações voltadas ao melhoramento genético, defesa sanitária, rastreabilidade, capacitação de produtores e abertura de mercados internacionais.
Parcerias técnicas com instituições uruguaias, como o Secretariado Uruguayo de la Lana (SUL), também contribuíram para acelerar a transferência de tecnologia e fortalecer a cadeia de valor ovina paraguaia. (Associação Rural del Paraguay)
Embora ainda possua um rebanho significativamente menor que os de Brasil e Uruguai, o Paraguai apresenta elevado potencial de crescimento.
A disponibilidade de áreas de pastagem, a expansão da genética especializada, a abertura de novos mercados e a crescente profissionalização dos produtores indicam uma trajetória promissora para a atividade.
Com foco na produção de carne de qualidade, eficiência produtiva e integração regional, a ovinocultura paraguaia consolida-se como uma importante componente da cadeia ovina do Mercosul.
A história da ovinocultura no Paraguai demonstra que tradição e inovação podem caminhar juntas.
O que começou como uma criação de subsistência evoluiu para uma atividade organizada, tecnificada e orientada ao mercado, fortalecida pela atuação das entidades de classe e pelo compromisso dos produtores com a qualidade genética e a competitividade.
À medida que novos mercados são conquistados e a produção continua a se profissionalizar, o Paraguai amplia sua participação na ovinocultura sul-americana e reafirma seu papel estratégico no desenvolvimento da cadeia ovina do Mercosul.
Asociación Paraguaya de Criadores de Ovinos (APCO) – História Institucional (APCO)
Associação Rural do Paraguai – 40 anos da APCO (Associação Rural del Paraguay)
SENACSA – Primeira exportação de carne ovina aos Emirados Árabes Unidos (SENACSA)
Associação Rural do Paraguai – Exportação histórica de ovinos ao Uruguai (Associação Rural del Paraguay)
Estudo sobre a cadeia produtiva pecuária do Paraguai (ODEPA/Chile) (Biblioteca Digital ODEPA)